terça-feira, agosto 14

Oitavo Mês


Agosto, dos desgostos
amassando de novo
esse clichê malarrumado.

Agosto das voltas por cima
das voltas pra terra, na morte
das voltas pra mim, à vida...
Agora o agosto deslumbra
um terno frescor de paciência
de envelhecimento e luta
por uma cor sob o inverno
Agosto esgotador das energias
dos meus calos e mãos doloridas
de pressionar redesenhar as dores
que não sangram - mas ensinam.

segunda-feira, julho 9

Religare


Reza pro Santo Dinheiro
Pela graça desgraçada
Da família violada
Pinta de ouro a alma
Reza não salva, reza não salva
Pede pro Santo Dinheiro
Dormir bem no travesseiro
Tempo corre, desespero
A prece fica no meio
Reza não salva, reza não salva
É gente? é cifra? é níquel? é nada.
Reza pro Teu Dinheiro
E pede sabedoria
Mastiga em agonia
Arrota só fantasia
Reza não salva, reza não salva
É gente? é cifra? é níquel? é nada.
Reza pra ter Dinheiro
Tudo que vale é prata
Com ela se compra a Graça
O preço do tudo ou nada
É só a reza que não salva,
É só a reza que não salva

Fome no Banquete


Na tua mesa se põe o que?
Verdade absoluta
Bonita maçã robusta
Com a podridão por dentro
Na tua mesa se põe o que?
Coisa boa de inglês ver
Abraço em pratos rasos pra comer
Palavras que desmancham no vento
Na tua mesa se põe o que?
Além das moscas e das larvas
Tua gula, por dentro, mata
Por algo que não é alimento:
APARÊNCIAS.

A Ponta do Lápis



Faxinava os pensamentos
Sangramentos incurados
Inesperado o momento
Do argumento indignado


Quebrou a ponta do lápis!


Sem a grafite da ousadia
Agonia dos mal amados
Invernou a poesia
Chovia - sem chover de fato


Nem fiz a ponta do lápis...


Intumesceu todo o pulso
Recluso que são os lábios
Disfarço qualquer soluço
Escuto - o som vem áspero


Guardei na gaveta o lápis.


Tinta crua, enfervescente
Milagrosamente sai ao acaso
Um rastro de Sol nascente
Aquece no rosto o sumo ralo


Aprendi a escrever de pena...

Acajuh


Com você, posso escolher 
entre estar só ou acompanhada
ser menino ou menina
ser gente ou coisa abstrata
Reinventar a Criação
morrer agora ou mais tarde
me aventurar no imaginário
fazer de uma nuvem, echarpe
Sem você o tempo me parte...
distende o músculo de respirar
fratura o sorriso - que já é inventado
lacera o tato de imaginar
Acajuh é a cor dessa alma
das onze ou doze que tenho direito
ser monólogo - e me sentir acompanhada
beber da calma - com pensamento ligeiro.


Dedicado ao dono daqui.

Aos Cuidados da Dor



Com o tempo, a conquista se desarma
Qualquer permissão se aprisiona
No coração o sonho faz redoma
O verbo vem desacertar a boca
A órbita sofre um reboque - solta!
O desejo desabitando as mãos

Palácio vazio, de tons góticos
Um eco imenso nas abóbadas
Os pés lacerados, pela via torta
O padrão do mosaico é monotonia
Reflete cores no chão, sem ousadia
Poeira nos bancos, sem joelhos no chão

Com o tempo a invenção desbota
As ondas voltam e o mar distancia
Os punhos cerram, o hálito esfria
Os nomes abandonam as coisas
Até o canto desencanta a moça
A água suja transborda a bacia

E não é mais possível lavar o amor

Nem escrever sem que a dor tome conta

sexta-feira, março 9

Assinado, Morte


é uma célula ou o Universo?

Vou e não levo nada
porque do nada vim
nele me ergui
mas pouco gerou
Vou, mas não quero nada
porque nada trouxe
o que tinha, cabou-se
e nem cinza restou.

Cabe só o tanto
do tamanho de cada alma.
E é tudo que levamos...
O resto é ilusão concreta
da matéria que revela
apego sem sentido
preso às mãos.

VIDAMORTE


ps: quis colocar um ps explicativo nesse texto,
mas uma esquizofrênica literária perderia seu título
se o fizesse. Portanto, não o farei.

segunda-feira, fevereiro 27

No que você está pensando?



Depois de velha, dei pra chorar por mais de uma coisa ao mesmo tempo. E não entendo. Não há ordem que caiba nas coisas que roem o estômago. Não há ordem que possa caber na obediência da emoção, porque a emoção nunca obedece. E sobre isso ainda não sei se é bom ou ruim.

É tanta chuva que não se aguenta estar só debaixo dela. Espera-se que alguém possa, com você, pisar nas poças. E chutar a água, e molhar a roupa também. A probabilidade de encontrar alguém que possa compartilhar isso de verdade, sintetizando o que se sente numa rede social, qual é?

Mas é preciso falar.
Gritar, ensaiar, vomitar.
Laborar, tecer, endoidar.
E assim alguém [curte].

Depois de  [curtir] o couro da alma, faço um gibão bem enfeitado e vou só, por dentro dos meus arbustos espinhados que por vezes rasgam-me o peito.

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poeira ☼´estelar : : º


Palavras que são pipas,
Com 3/4 de papel
Os olhos deslumbrados
Vê as estrelas, sem o céu 
A poeira dos cometas 
Que batem sem prever 
Desleixam meu mundo simples 
Que há eras sobrevive 
Escondidos no meu ser 
Teu céu tem mais poeira 
Que estrelas pra contar 
Sei lá, mas esse papo sem assunto 
Os vícios desse mundo 
Me dão uma preguiça retada...

Luz Marina


A Luz da Marina Desfocou
Mexeu, virou, saiu do meu barco
Ancoradouro raso
Não sei mais onde aportar...


A Luz da Marina Apagou
Virou, mexeu, esqueceu do meu barco
Esse casco ainda frágil
Vai meter-se em tempestade...



A Luz, Marina, era tudo
Pois quando se saber onde chegar
O alvo precisa estar claro
Iluminado, calmo feito o Mar...


Mas no teu foi onde naufraguei
Nadei e a Luz ressurgia
Cegou, me perdi de vez
E na tua Luz, Marina,
Nunca mais pude enxergar...


Pós Embriaguez de mim



faça me o favor
de trazer um café
forte, amargo e quente
fervente, como meu sentimento.
faça me o favor
de sair por um instante
deixar me criar
desentulhar cada coisa aos poucos

por favor, não vá longe
que volto já, é num rompante
enquanto alimento a paz
e te encontro mais uma vez,

mas me traga um café
pra limpar o aroma desse ar
pra concentrar o sabor na boca
lavar minhas papilas, antes do teu beijo.

quarta-feira, fevereiro 1

Samba do Sorriso Doido


Pois, seja feliz
Mas seja feliz bem baixinho
De canto e bem de fininho
Que a inveja pode acordar
Pois, seja teu sorriso
Mas vá de lado, no miudinho
Que o tom pode desafinar

Quem não sabe a nota da felicidade
Desconhece o sambar da criação
Pois sei que um cara maluco
Fez desse mundo sua composição
E quem não tem ouvido, atrapalha

Não sorri de graça, nem sabe pandeiro na mão

Pois, seja feliz
Mas seja bem cedo
Antes do passaredo
Levar a notícia nas asas
Seja um menino esperto
Que é largo o som pelo eco
Traz quem não te traz nada

Quem não sabe a nota da felicidade
Desconhece o sambar da criação
Pois sei que um cara maluco
Fez desse mundo sua composição
E quem não tem ouvido, atrapalha.

Não sorri de graça, nem sabe pandeiro na mão

Carnavalsa



Vem, e faz teu carnaval aqui
Porque em mim é tua avenida
Onde vão as mãos perdidas
E teu bloco vem passar, de beijos
Abençoa nosso cortejo, canta!
É na valsa, na marcha ou no samba
Que nosso pé sabe aprender
Das ruas, das praças pra cama
Tira a máscara e me chama
Que a chuva é de confete
Que o som são os tambores do peito
Pra ti, o dom de ser o enredo
Mais feliz do meu desfile
Vem, faz teu carnaval comigo
Onde tudo é permitido
Entre a carne e o sagrado
A fantasia conduz nosso passo
E faz desse amor lindo frevo.

O Caos das Coisas


Lembranças da urgência da vida e seus restos gastos.
As costas apoiadas na parede onde bate a luz, final de tarde
Cigarro na boca, apagado, borra na xícara, braços cruzados.
Todas as obras inacabadas. Ateliê desarrumado.
Quebrou os pincéis? Pintar com os dedos!
Só que esqueci alguma coisa - ou nunca soube
Do que já pintei nesses quadros  - o que foi feito?
Où et quand depois da tela despedaçada?
Onde e como, depois do desespero em labirinto-eu?
Cá dê as cores que derrubei do armário?
O café frio, o relógio, os passos...
A vassoura levou as estopas, levou as tesouras
Deixou meu corpo sujo e empoeirado.
Dias e dias deitando no assoalho como penitência
Pra sarar pecados que me impediam de criar.
Olhar pra dentro e ver silêncio é ensurdecedor...
Olhar pra dentro e não ver nada cega todas as vontade.
Tudo isso sobre a urgência da vida e seus restos gastos
As costas apoiadas no chão, bate a luz do sol já tarde
Cigarro na boca, apagado, borra nova na xícara, braços estirados.
Todas as obras inacabadas. Ateliê desarrumado.
E essa urgência me fez correr tanto e  pra tão longe de mim
Que não há cor que sirva, não tenho um retrato falado: 


"Procuro-me."


Onde eu me acho...?

Tempos



Trovoada. Entrei na curva do tempo e por ela enlaçada voltei. Acordei nublada... Abrigada na saudade puxei uma cadeira, convidada a ouvir a velha história do sujeito sem predicado. Horas congeladas, relicário enferrujado. Chuva de verão, o coração resfriado. Se eu dormir, desembaraça-me, tempo descontínuo... me larga de volta onde me capturou. 

Teu barco é uma canção cujo destino a alma só conhece ao ouvir navegar. E levar-se, leve, longe, lama, lavar. Foi o tempo que deu a volta em torno de mim, estruturado como algo bem longe do que supomos retilíneo. Choveu aqui... que essa água vire rio e conduza o barco de volta. Se houve um ponto no espaço que o sorriso recompensou o abraço foi-se embora sem despedida. 

E agora, mal ingerida, essa vontade abre portais para encontrar as contas desse colar do tempo, que quebrou. São momentos que vão nos bolsos, na bolsa, no relicário... Como sentir saudade de um futuro vestido de passado? Pretérito anterior ao corpo, vizinho da alma... e de pés cansados.


# resgate de escritos inacabados, 
despertados por música - Tiê

segunda-feira, janeiro 9

Mosaico



Por entre as folhas, uns galhos. Cacos de textos e palavras, aos pedaços! Estilhaços de verbos invocados, que não respondem. Desenhos sem arremate pra, quem sabe uma caneta encontrar. Colorido, confuso e organizado, meu mosaico de sentidos, misturados! refletidos nos pedaços de espelho, vidro e azulejos do meu mundo escancarado. Cola, descola, nessa falta de inspiração, memória, corto as pontas dos dedos encaixando pedaços onde não cabe. Um todo não é simples junção de partes. Mosaico novo, com os teus pedaços tortos,  bem assim como me sinto agora. A minha inspiração espera a sua aurora, para que outra vez me sinta merecedora das palavras e sentidos de novo.

segunda-feira, janeiro 2

Noar



Solto, mas tão solto, que não posso caminhar. Solto, mas tão solto, que paraliso perante a janela, a esquina fica a mil léguas, nem mesmo o pensamento pode alcançar... pois estou solto. Dizem que deixado assim: leve. Mas, na falta de gravidade, o impulso se perde e minha feição admite o desespero de quem se viu preso em liberdade. Dentro das mãos um bilhete: quem sabe um  hobby novo? - descuido explícito. Barco à deriva não volta ao porto, onde a pretensa liberdade faz questão de não te deixar ficar. Procuro e já não te ouço. Suportar a mim mesmo, suporta pelo outro que ainda é outro sem mim, admito. Noar.. Noar.. Terra chamando! Câmbio, desligo.


DCD ofereceu-me o sentimento
comprei o desafio e lacei as palavras.