domingo, dezembro 11

Dívidas


Tenho medo de que você vá. Mas tenho mais medo ainda da tua inexistência ainda em vida, da falta que faz sem eu perceber e de acostumar-se a negar que a sinto e que não me permito sentir mais. Tenho medo da ilusão do que existiu, medo que falte o perdão, medo das entranhas laceradas pelo silêncio das palavras, pelo vazio do abraço. Pela ausência. São tantos ciclos abertos, fragmentos de amor, de amizade. Incógnitas passageiras na tua expressão, nas tuas mãos, nos teus silêncios. Eu não sei mais ser irmã. Não sei se soube algum dia, mas são tantas dívidas que fechei a conta. Os enigmas que permeiam nosso encontro são duros, longos.. longos demais. E eu nunca vi nenhum deles cair no chão. Talvez eu tenha me enganado em alguma bifurcação da nossa estrada. Talvez tenha feito escolhas certas, outras bem erradas, mas acho que nunca vou saber. Vejo meus defeitos em você. Ou, como deve estar fazendo análise de mim agora, apenas projeções. Meu velho amigo, tão velho quanto papiro, não queria te jogar em um copo de vinagre. É duro admitir nossa distância. É mais doloroso ainda admitir a ignorância do que aconteceu. Mas, como você sempre diz, tudo que acontece, tinha de acontecer. E nossa amizade aconteceu, assim como também o nosso desencontro.

São muitas dívidas, pra pouco desconto.

sexta-feira, dezembro 2

Blogosfera SoL # 2

Imagem retirada por meu Pai (aquele que tem 3 metros do post:
Teste de Paternidade) no Sertão da Bahia. Flagra mais lindo do mundo.


Olá pessoas, como vão ? Nunca mais fiz um post indicando alguns blogs, então acho que essa sexta valia uma imagem dos meus arquivos e alguns links que descobri. Tenham um excelente final de semana! 

1. Blog do Jair Freire
2. Blog Mil Palavras, Um Pensamento
3. Blog de tirinhas, Um Sábado Qualquer  (ADORO!)
4. Blog Benditas Palavras Benditas


segunda-feira, novembro 28

O Espelho



O espelho onde me vejo está manchado? Está. O espelho onde me vejo, eu sou capaz de limpá-lo. Será? Onde encontro os erros teus, são também os erros meus, o embate das trevas que não posso dissipar. Embassado e deslocado, meio torto do lugar, eu vejo as cruzes e as cicatrizes velhas que eu não sei maquiar. Se mexem a cada ciclo da lua. Um soco no espelho não alivia o pesadelo lúcido de encontrar em mim o que renego. Cada caco me torna cada vez mais nua. O espelho é o avesso e meu inteiro que não quero resgatar. É a verdade descarnada, a juba do ego aparada, e pronta pra mudar de novo.

Silêncio




Palavras são sementes. Às vezes, quando o chão é pedregulho, não planto e faço do silêncio um descanso. É o desafio mais difícil para o humano, bicho de dois ouvidos. Quando for possível viver o silêncio sem incômodos, outra alma se encontrou. Absoluto respeito pelo bem ou mal estar do outro. Entendimento, nem sempre, mas dentro da gente nós sabemos que alguma coisa está voltando pro lugar. Silêncio é tormento. É a falta de palavras latifúndias de dor ou de alegria. Tornar-se parte do mundo inanimado e sentir o relógio parar de girar. Ser mudo ao mundo, não sorrir e nem chorar. Meu silêncio é impessoal. Necessário. Caro. Meu mar.


domingo, novembro 27

Ampulheta



Tu és, no agora enquanto, esquecimento contínuo.
Na ampulheta demarcou-se algum destino
Prorrogado pela fé de desfazer maiores grãos
Gira e revira, preenche de novo, na medida
Esvaziando o lado esquerdo mais uma vez.
Na mesa a ampulheta. Acordei, e esquecia. Eu sonhei,
Mas em sonho eu também me esquecia. Amanheceu.
Teus cortes tão mais fundos ou muito frágil as minhas teias?


Acordei em desespero, porque tudo desaparecia...
Despejei ali mesmo o mar do meu peito.
Procurando um lenço, tropeçando e sem jeito,
Derrubei a ampulheta, despedaçada no chão.
Areia do esquecimento por todo lado...
A borboleta que morava lá dentro voou alto
E libertou pra sempre os gritos que engessei
Na esperança de um encanto em um grão qualquer.


Tempo.


segunda-feira, novembro 14

O Anjo



... veio e pousou.


O anjo e o cigarro.
A áurea do anjo
E seu sorriso navalhado
O moço desapegado
Magnético às pessoas da Terra.


O anjo e os olhos.
As asas no bolso
E o corpo que dança
Escorrega suas tranças
No peito nu, camisa aberta.


O anjo e o copo.
A fumaça que sai
A verdade que entra
Resvalou no peito, o reinventa
Brinca com as suas setas.


Pontiagudas, em chamas, envenenadas
e incrivelmente desembriagantes.


De novo voou...

sábado, novembro 12

Une Dune Tê

Une Dune
Salamê minguê
Eu não sei fazer
Poesias pra você?

Une Dune
Salamê minguá
Eu dou flores a você
E você o que me dá?

Une Dune
Sala de estar
Quanto mais eu chego perto
Mas você se afastar

Une Dune 
Para de brincar
Se perder o meu amor
Outro cara vai achar.

segunda-feira, novembro 7

Aborto


Um peso morto no peito
Era pra ser forte - menino
Era pra ser doce - menina
Era pra ser criado solto
Mas virou um peso morto, no peito.
Borboletas prematuras
Espremidas de um casulo
Ciclo de início, meio, sem fundo
Onde não põe semente nova
Giram as rodas do moinho
Tortas, moinho abandonado
Rocas de fiar, dedos cansados
Perfurados, sangue azul do amor real
Abortado, e nas mãos cerradas
O veneno, em forma de carta
Mastigado, o vestido em pedaços
Estanca o ventre onde um dia
Se criava borboletas.


sábado, outubro 29

Teste de Paternidade



Meu pai é bem grande. Deve ter uns três metros, mais ou menos. Ele é grande mesmo! As mãos do meu pai também. Elas são largas, bem fundas, que uma vez eu pedi pipoca da vasilha dele e toda pipoca que coube em suas mãos eu passei a tarde todinha comendo; e ainda de noite. Meu pai tem um segredo: ele voa. Só que ele não sabe que eu sei, e tenho medo de contar e acabar com o poder. Uma vez que fiquei doente, ele saiu e voltou tão rápido com o remédio que nem deu tempo de eu dizer "ui".Luli, meu cachorro, também sabe. Quando os dois saem eles fazem uma coisa muito importante, mas o Luli não me contou ainda. É sempre bem cedinho, pra ninguém ver. Uma vez eu quase pego eles, mas peguei no sono de novo, embaixo da mesa da cozinha.

Meu pai sabe várias tecnologias. Sabe fazer um boneco que, por mais que a gente bote ele deitado, ele não fica! Meu pai disse que se chama "Joao-Bobo". E eu acho que de bobo ele não tem nada.Outra vez ele fez um cavalo que andava sozinho, de madeira, com o canivete mágico dele. Tudo que ele faz com aquele canivete fica mágico também. Eu ainda sou pequena e não ia entender toda magia dentro dele, por isso meu pai não deixa eu pegar.

Meu pai só não é muito bom de futebol. Quando a gente joga eu sempre ganho. Faço gol até por baixo das pernas! Acho que é porque ele tem três metros mesmo. Quando ele chega do trabalho e me levanta lá em cima... nossa! Dá um friozão! Ele não sabe que eu sei, mas todo dia ele me treina um pouquinho pra aprender a voar que nem ele. Só não sei se vou ter a mesma força dele. Sempre que brinco no balanço ele me empurra com um dedo só, enquanto come amendoim, e eu vou tão alto que demora cinco minutos pra ir... e voltar...

Meu pai também é muito inteligente e sabe todos os números, até o infinito. Todos que pergunto ele responde, até conta de vezes de 9 e de 15. Ele trabalha de fazer casas, porque ele não quer trabalhar de super herói com os poderes dele, senão ia ficar muito longe da gente. Ele não sabe que eu sei dessas coisas, mas sabe que quando eu crescer vou ser igualzinha a ele...


Ps: acordei as 6h da manhã. Minha bolsa estourou e eu pari esse texto.
Foi parto normal e todos passam bem, inclusive eu com sono.

quinta-feira, outubro 13

N0t4: Outubro


"Moça, Olha só, o que eu te escrevi
É preciso força pra sonhar e perceber
Que a estrada vai além do que se vê"

Tudo velho de novo. Assim tem sido minhas horas.A música vai e vem, uma te faz sorrir, a outra não faz nenhum bem mas, são ouvidas. Quem sabe esse recorte diferente no papel, que é meu coração, desate num imenso espiral colorido? Eu aposto ou uso a criatividade? Porque apostar é depositar a sorte nas mãos de outrem, ser criativo é um exercício perfeito de nós, com nós, para nós mesmos. Não sei se o novo pode chegar antes que o antes se tone velho, e isso leva tempo. Mas quando envelhecer... valioso fóssil há de ser a minha dor. Conheço o rosto e o gosto da revolução amarga que é sofrer. Conheço os bons e os maus sinais e agora eu já faço escolhas, embora outras sejam realmente impossíveis de serem feitas. Não importa quanto tempo passe. Suportar? Talvez. Talvez seja esse o dom que eu procuro, o de suportar a mim mesma. "Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável." Superar ainda não aprendi, mas estou aprendendo. Aprendendo que chorar não é morrer. Que desistir nem sempre é perder. E que a estrada vai além - bem mais além - do que supomos ver.

Dedicado à Luciene, pelo disparo de alegria;
à Cajuh, pelos conselhos que eu nunca sigo;
à  Fabiana pelos conselhos que nunca segui; 
à Anna Bahia, pelas verdades necessárias.

domingo, outubro 9

Depois do Inverno


Esperei de tarde, na janela
Esquina com casa de parede amarela
A primavera, de saia, e não vi.
Esperei a primavera.
Ignorei, procurei, descobri,
Eu senti, feneci, encontrei
Que primavera, meu amor, 
É de dentro pra fora. Eu sei.
Derrete meu gelo agora
E faz do meu peito jardim,
Que por botão não tenho apreço
Que borboletas morrem aos cestos
Quando não conseguem voar em mim.

Cometa


Era um cometa! 
Um cometa com elipse distante.
A força da Lua em fases,
Atraiu, em sua gravidade
O cometa de cauda brilhante.

O cometa chegou. O cometa partiu.
Sem pretensão. Poeira no caminho.
Calculando as datas da sua passagem.

Cai estrelas dos olhos dela,
Anéis de saturno semi usados.
No espaço, via crucies do amor esperado
Com cores das funduras universais secretas.

quarta-feira, outubro 5

#LaneDay


Hoje vai ser o #LaneDay. Feriado mundial local. Eu vou acordar 10 horas. Colocar uma roupa velha, andar de bicicleta e todas as ruas estarão asfaltadas. Uma caixa de som, bem grande, vai me acompanhar tocando o que eu pedir. Red Hot, Kings, Cold e Cranberries. Vai chover às 15 horas, mas vai fazer sol junto. Vai encher de borboletas quando eu mexer nos cabelos. Vou jogar bola, fazer um milhão de gols e ainda vai ser 15 horas. Vai passar Amelie Poulain na Sessão da Tarde, e vai ter pipoca com cobertura de chocolate. Mas não vai ter ninguém em casa. Minha melhor amiga virá aqui e vai trazer uma fita do Top Gear e outra do Final Fight e ela vai me deixar ganhar todas. E não vamos precisar assoprar o cartucho nunca.

Vai chegar o fim da tarde e eu vou ver um por do Sol com um Sol grandão, na praia (que vai ser ali, na saída da cidade) e Deus vai derramar todas as tintar do ateliê dele, pra ficar mais lindo ainda. Depois vou entrar na internet e a velocidade vai ser de 5GB. Vou baixar CDs raríssimos, um TCC pronto e dar uma volta na montanha russa gigante que apareceu no meu quintal. Quando eu tomar banho, dois homens lindos vão me levar no colo, de roupão, numa limusine, até um centro de beleza. Penteado, visual, massagem, tudo de graça. E ainda são 18 horas.

Depois, vou pra uma boite que tem meu nome, tem mil pessoas lá dentro, folgado, toca forró e eu danço muito bem. Tem 10 strippers só pra mim. Termino a noite mais linda do que quando comecei, e vou dormir em uma cama de 5 x 5 m, numa casinha no topo de um monte, com uma lua maior que o Sol de de tarde.

Fim.

• Parabéns para mim •

quarta-feira, setembro 28

Das Impertenças



Sempre vai me faltar meio coração, 
Meia alma, meio caminho, meio juízo
Pois sem você eu sou só metade 
Desencontrada no mundo real

Sempre vou travar minhas lutas
Com gigantes - velhos moinhos
Dentro do meu instante, sozinho,
Negando tudo que parece ideal

No meio de trilhas errantes,
Encontrando escadas, passagens, mirantes 
Me julgo incapaz de interrogar

Se serei capaz de investir
Em futuro, vida, carreira sem ti
Que, sem querer, deixou minha vela rasgar

Sempre vai me sobrar um espaço
Um verso, uma trova, um laço
Amarrado em cordão de três fios
No móbile que comecei a fazer

Sempre vou deixar um pedaço
Um retrato, um pano, um papel
Uma rima torta do meu cordel
Que aprendi a rimar com você

Mas se me perguntar se eu troco
Se vendo, se barganho, se encosto
Essa minha vida de colecionar outras almas

Eu pergunto o que é mais correto
Trocar o duvidoso pelo certo
Ou descobrir o poder da aventurança?

Ipê Amarelo


O vento está sempre ao contrário
A sua volta, é minha partida
A sua chegada é minha ida
Os meus olhos são atores
Que esqueceram as margaridas

O vento está sempre ao contrário
O remador não sabe o norte
As ondas altas cobrem o forte
Encontro seres do mar, inventados
Recorro à Nossa Senhora da Morte

O vento está sempre ao contrário
Nego a rendição perante o fracasso
Quando voltas pra terra, estou no mar alto
Quando a tua maré baixa, sou pescador
De palavras e gestos descombinados

O vento está sempre ao contrário
Traz tudo de inoportuno, pelos lados
O tempo não cura o Ipê Amarelo
A raiz tornou-se algo assim, complexo
E passa o tempo todo mudando de folha

O vento está sempre ao contrário
Os tesouros no mesmo chão enterrados
No mar, sou missionário do remorso
Você é pirata de tudo que não mostro
E minha escolha é sempre o cardeal oposto ao teu.

domingo, setembro 25

O Vendeiro e o Poeta



Pode um poeta mentir, seu Valdinho?
Pode um poeta fingir, se fazer de bendito
Quando maldito for,
Se fazer de menino,
Quando envelhece mais que o avô?

Pode um poeta fingir seu destino?
Escolher (ou esconder) o seu fascínio,
Colher flores onde não tem
Ser pessimista, quando só veem o bem,
Tomar leite e dizer que é licor?

Moço, se fores poeta, como estás a dizer
És tanta gente que não posso saber
Qual delas diz a verdade
Qual delas de ti é parte
Quando só tenho as palavras a que me apegar

Esse caderno, folha amarelada
Tem mais dores que todas as almas
Tem mais gente que o livro da vida
Tem mais contas que meu caderno de dívida,
É escravidão e liberdade. É um Karma.

Pode um poeta mentir, seu menino?
Pode um poeta morrer, moço espreito?
Posso ser o que eu escolher, seu Valdinho?
Pode, Homero. Vou fechar a venda.
Deixa que ponho tudo no prego.

segunda-feira, agosto 8

Cartas Inúteis


Meia dúzia de abril desse ano,
Saudações,

Te escrevi dizendo tudo que sentia, e não sinto mais. Te escrevi dizendo tudo que eu queria... e não quero mais. Escrevi falando do meu tempo louco, dos embates bobos aos quais meu coração se viciou. Falei da minha história, do meu jeito, do meu pavor. Escrevi cinco pares de rimas adoidadas, atarefadas demais com outra infinidade de poemas pra rimar: deixaram um ''ps:'' e se foram. Eu parti o papel em quatro, pra dizer só o que fosse suficiente. Escrevi em um oitavo, a distância entre um Sol e outro - ou seja: a duração de um dia. Um dia a carta chegará, e espero que saiba ler. Não gostaria de prender sonhos em linhas, mesmo imaginárias, neste papel amarronzado. Eu gostaria que fossem cartas aéreas, livres, viventes, escritas em par de dois: a gente. Ontem escrevi, dizendo tudo que não servia, por isso dei alforria aquela folha indefesa. Trago aqui palavras vivas, gestos conjugados na terceira: ir, e por isso escrito sem pressa. Assino sem destreza, por achar mais bom viver.

PS: o selo é da sorte, para o nosso bem querer.

vontades intensas demais pra eu pensar. 
postei.. lembrei-me melhor das coisas.

quarta-feira, junho 8

Sóbreda


Acima da liberdade em verso, abaixo do mais tolo sentimento, o centro da mesa jamais esconde, o louco que guardas por dentro. Por amor se bebe. Por falta dele excede, garrafa após garrafa. Bêbados encontram tudo, preenchendo todo nada. Sóbreda, se medita melhor, ou copiosamente chora gloriosa perda do amor em vão. No meu ombro não! Que estou sóbreda. Quis dizer: sóbria.
BêbadaTrôpega. breda.
Sem sobras dentro dos copos, os restos dentro dos corpos de fantasmas quase vivos, quase íntimos das ressacas de amar. Bêbadas sempre encontram amores, ama-se tudo, ama-se nada. E pelo amor, bebamos! E pelo amor, oremos! No lixo, e nos escombros, caçamos entulho, pedaços, o preço, de restaurar tudo que um dia fomos capazes de chamar de amor. Na mesa não há mais certo ou errado. A dor deixa seus tons monocromáticos. Borboletas no aquário nadam sem parar. Afrodite deu o seu lugar a Baco. E eu jurando nunca mais amar. Só enquanto durar essa garrafa...


Ps: em negrito, Raquel Barbalho, via Facebook. Disparador: Caio F.Abreu dizendo "...mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado comigo: um dia encontro".

segunda-feira, maio 30

O Não Dito


O não dito diz mais que o dito
É tudo que lhe compõe
É o que nos transpassa
É o negativo da foto
O verbo que não se encaixa
O não dito me disse uma vez
Que se descobre nas linhas tangentes
O que se quer dizer de fato
O que vem do fundo e não mente
Maldito não dito, capaz de distorcer
Retorcer, amarrar, retroceder
Ao marco zero do pensamento fugaz
Porque o não dito, quer ser dito
Dói mais que o dizido, pois é dor somada
Do sentido aleijado, da frase inacabada
É o perigo revelado, de qualquer coisa iminente
Não se sabe o que, nem onde
De que tamanho, se é datado
Se virá da gente, se será ponto
Se é encontro, ou nó desatado
Só sei que é da altura de um grito,
Forte que nem um tapa,
Longo, que nem a insônia,
Imenso, feito esse quarto...

domingo, maio 29

Abreviando Espaços


E os desencontros?
Falsos cognatos
Passos ao encontro
Um tempo, um espaço
Certezas insanas
Destinada ao ato
Como diz desse vazio
Meio cheio, meio morno
Meio frio, meio estático
Vive em desencontro
Esperando o salto
O verbo mal(-)dito
O sentido infinito
De transbordar o copo
Andar de pés descalços
Descobrir qual o teu laço
Da vida presente, cheia de passado
Os desencontros e o final
São falsos cognatos
Cuida bem dos teus pés
Que "a vida é real e é de viés"
O mundo não acabou
Nós que fomos adiados.

domingo, maio 1

Sem Novelo


Avesso transpassado               A   B
de segredos desfiados             A   B
Nos inversos, desreverso        C   C
crio meu verso, desvendado.   C   B

Depredado é o meu nexo        B   C
me expresso invertebrado       C   B
Inacabado é meu inferno         B   C
De mistério indecifrável           C   B

Estupida oração                     D   E
Ininterrupta cançao                D    E
De renascer, desvanescer       F    F
Acender o coração                F    E

Instigante é o olhar                G    H
De laçar, bem nesse instante  H   G
Esse infante a questionar       G    H
É melhor agora ou antes?      H    G

Das Conjugações


eu e tu,
tu e eu:
nós seis.
inacabados caminhos
desviados destinos
transposição de sentidos
inovação de desejos
meu ensejo é que sejamos
eu e tu,
tu e eu:
sem mais.

quarta-feira, abril 27

Grafitar S.SA

Não sei bem pra onde voltei
Nem mesmo se estou voltando
Lugares dentro, onde deixou grafites e pixações
Usando o mesmo spray, o mesmo spray!
Lugares de angústia
Onde a velocidade
A conformação de casas sem reboco
Viadutos e asfalto molhado
Me obrigam a te buscar
Elementos que me causam ilusão
Certeza absoluta de ter te visto passar...
Eu sei. Loucura. A paixão nada mais é.
E o tempo da cura derrete feito os quadros de Dalí.
Eu devia? Eu não devia.
Eu poderia ligar.
Voltar para o teu lugar me fez perceber
Que enlouqueceria sem mim...
Nada é tão bom que não possa estragar.
Se fosse tão fácil voltar
Como volto agora de teu território
Limpar as pixações
E deixar os grafites...
Mas segue o fluxo.
Pedágio à frente.
Quanto custa passar por aqui?

terça-feira, abril 5

oqueéovazio

.




(                                                                          )





Nada me inunda mais que o vazio. Na ânsia de emergir do oceano de angústia, cato botes, pedaços de madeira, coletes-salva vidas furados. O vazio é o que mais ocupa espaço. É indeletável. É incapaz de deixar outra coisa tomar o seu lugar. O vazio é do tamanho de um copo de cerveja que esquentou, largado numa mesa desocupada.. mas é impossível de beber. Como se bebe o vazio? Se bebe "ao" vazio, se brinda à ele, mas bebe-lo? Jamais. Alguma coisa é capaz de ter mais presença que isto? Isto que não se vê, não se percebe, não tem o cheiro, a cor, o lugar exato, porque é tudo, de fato. Vazio são meus devaneios, regados à uma leve embriaguez noturna. Vazio de pensamentos, mas não porque não nascem, e sim porque não há espaço para guardar todos que surgem. O vazio são emoções que se anulam. É a felicidade e a tristeza misturadas. Nao tem sabor, não tem textura de nada. Algo que não se pode chutar, não se poder comer. Comer o vazio pra me preencher. Existe algo mais estupidamente paralisador? Nadar no vazio é nadar nas próprias águas em que se afoga. O vazio vem de dentro, o vazio vem de fora. É tudo. É nada. Não é o ontem, nem amanhã: é o agora.



(                                                                                )




.

terça-feira, março 1

Coração Bandeiras


Você, ao despertar do sono, não poderia imaginar o tamanho do ser real que se apresenta. Não sou nuvem, não sou capa, nem máscara. Sou quem te olha debaixo da torre. Sou quem te prova que a releitura humana é possível. Sou quem te joga na alteridade do seu próprio orgulho. Vim de lugar nenhum, através de uma ponte quebradiça. Aqui estou, sem nada pedir, sem nada esperar, e tudo sendo. Olhei pra dentro de ti e vi o que pude; nunca ousei falar... mas te observo. Te espio e guardo as armas para desbravar-te. Nativa do vento, minha capitania se estende de leste a oeste em tuas buscas. Não fuja pela velha trilha, já descobri tantas outras! Suas terras não serão minhas posses, nem farei escravas minhas a tuas emoções. Serei capitão arqueiro, aventureiro, arriscando territórios certo de meu alvo: seu coração.

ps: sobre cartas que nunca chegaram
pra mim; nem precisaram chegar!

domingo, fevereiro 27

Blogosfera SoL # 1

IMAGEM DA SEMANA
Imagem retirada frente a uma loja, recôncavo da bahia.
A propaganda oferecia o conforto de um bom tapete.

Às vezes é interessante compartilhar boas leituras. Por isso, começo a sessão de links semanais, sempre aos finais de semana, para que o movimento blogosférico nunca pare. Um excelente final de semana pra tod@S!

LINKS DA SEMANA

1. Passaporte Love em "Eu blogo, tu blogas, ele bloga!" :
- um excelente recado para saber como ser blogueiro de verdade.

2. Paulopes Weblog em Filhos de Ateus e ensino religioso:
- uma polêmica interessante para quem gosta de educação, diversidade e religião.

3. Dicas D'ouro em Como melhorar a postura
- em tempos de uso intensivo de computadores, não custa nada considerar essas dicas!

4. O que me importa em Sobre a Paixão
- breve, sutil, delicado e intenso esse blog. Merece ser lido inteiro... e isso é inevitável!


terça-feira, fevereiro 22

Idade de Cristo


Daqui a dez anos
Terei a idade de Cristo
O que terei conquistado,
O que terei perdido?
Um molar, um siso
As amígdalas, a vesícula
Lido a Bíblia, feitos amigos
Corrido riscos, esquecido a família
Um filho, uma filha
Um par de sapatos
De bolinha e todo gasto
Vindo de meus 23 anos.
Quando eu tiver a idade de cristo
Estarei pensando nestes dias
Que andei pensando
Na década que viria
E em tudo que evitei arriscar
O tempo é disforme
Não há quem me informe
O que é presente de fato
É esse aqui agora
Que começa assim
E termina no próximo passo.

terça-feira, fevereiro 8

Enraizando Outra Vez


Carro, passos, luzes
Asfalto infinito
Depois do Solstício
Verde, ver de perto a saudade
Poder encara-la séria
E rir do seu tamanho, grão de areia.
Secou o que era mar
Mandacarú bem esculpido
Pousa pra foto com fundo de serra
Espinhos castigam e esse mato, senhor
Merece todo respeito!
Na porteira meu umbigo enterrado
Fumaça pra todo lado, hora de fazer o café
Hora de galinha no poleiro
Lençol de retalho na cama
Prosa, beijú, bolacha de goma
Candeeiro, sopro, candeeiro.
Vamos dormir.

Ps: sobre minha viagem às raízes, retiro espiritual necessário. 
Foi difícil escolher a foto... mais em um álbum especial do orkut.

Futucando Caixas


Atordoado, acorda. Passa no vão da porta, estranha a revolução. O sofá, a estante, a chama da lareira que não mais inflama. Tudo descontraído, em cores quentes. Corre para o guarda roupa; gavetas, caixas, nenhum vazio. Tranquiliza, enfim, pois mesmo com o passar do furacão descobriu que seus sonhos não foram levados. Embora empoeirados, ainda alí, prontos para experimentar novas pinturas, texturas, misturas com outros tantos sonhos de pessoas a chegar, a ir e voltar. A vida sem sonhos, mesmo tontos, é soneto inacabado. É verbo inconjugado, suicidado no grito da realidade. E essa por si só é incompleta e cinza, nem imita o que poderíamos chamar de vida.

domingo, janeiro 2

O ataque das 5h

Chegaram de galera
Cairam de montinho
Gangue de versinhos
Que nao me deixam em paz
Depois do almoço e da Coca
Em cima das 5 horas
Lá vem a carta chegar
Debaixo da porta
Num envelope rosa
Meu coração acorda
Agora eu vou apanhar
Bando de versinhos insensatos
Meus sentimentos desmascarados
E uma nova sorte impressa em meu pergaminho da vida..

Acabei de fazer. Vez em qd tenho uns surtos assim.. tem palavras que preciso prender logo, rapido.. pq correm demais. e pior qe sao as mais serelepes e diertidas de ser ter gradeadas em versos.
(Made in Msn)

sábado, janeiro 1

Ser Rei

Serei, no vão de cada elo, a poesia explícita, as luvas de pelica, as mãos calejadas de palavras sem final. De ponta a outra da corrente passeia meu corpo doente da patologia humana, capaz de curar-se em cada verso. Serei, no vão de cada elo, os elementos escondidos no bolso falso da mochila, o contrário das mentiras que caem como gotas de sangue desses olhos. É para engolir o grito do teu pulso entusmecido. Escancaram tua boca apenas para violar, beber a verdade dos falsos, cortar a língua dos fracos; calar. calar. calar. Decidi que serei livre no vão de cada elo enquanto puder, o tempo todo que tiver nas mãos. Rei do próprio reino de liberdade, a minha única religião.